FIQUE SABENDO! / POLÍTICOS QUEREM QUE VOCÊ ESQUEÇA O QUE ELES JÁ DISSERAM SOBRE O IMPEACHMENT, MAS A GENTE LEMBRA
Manifestantes iniciam passeata contra o governo do presidente da República, Michel Temer, na avenida Paulista pic.twitter.com/eEvyIeyE3s— BBC Brasil (@bbcbrasil) 4 de setembro de 2016
Seguindo a lógica das campanhas políticas brasileiras, algumas coisas ficaram apenas na promessa, e “o resto” tentou ser esquecido. Em vez de “primeiro, a gente tira a Dilma e, depois, o resto”, primeiro, afastou-se a ex-presidente Dilma Rousseff, por ter alterado os gastos do governo sem consultar o Congresso. E, depois —dois dias depois— , o Senado alterou a lei, de forma a não se precisar mais da permissão do Congresso.
“Fora, Dilma.” E depois…?
Esquecer o que se promete ou que se fala é prática comum na classe política. O mesmo Michel Temer que hoje demonstra algum problema de visão — ou de matemática — ao estimar o tamanho das manifestações, há pouco mais de um ano classificava o impeachment como “impensável”.
“O impeachment é impensável, geraria uma crise institucional. Não tem base jurídica e nem política"— Michel Temer (@MichelTemer) 30 de março de 2015
Rodrigo Maia: Impeachment, com as palavras do pres. Lula, nao vai ser como Collor. Vai ser com muito sangue na rua. http://t.co/rHsYUTAumq— Mônica Bergamo (@monicabergamo) 1 de março de 2015
- “Quando Jango caiu, era claro que ele havia perdido a capacidade de governar porque o Congresso não seguia mais as determinações. O Congresso bloqueia. Jânio caiu porque se chocou com o Congresso também. Tinha a maioria do povo, mas não tinha o Congresso. O Collor, também. O Lula entendeu [o papel do Congresso], talvez, não no sentido que eu acharia melhor. Ele cedeu no que não deveria ceder. Não sei se a Dilma percebe os riscos.” [ênfase adicionado]
Três anos depois, no entanto, em março de 2015 durante outra entrevista à imprensa, desta vez ao jornal Estado de São Paulo, ele afirmou que “o caminho” era o impeachment. Disse também que “as ruas gritaram renúncia, fim, impeachment”.
Agora as ruas gritam “Fora, Temer”. Será que ele está ouvindo?
Após Temer desdenhar "40" manifestantes contra governo, SP tem maior protesto até agora. Mas PM não estimou público pic.twitter.com/og2TjGMawV— BuzzFeedNewsBR (@BuzzFeedNewsBR) 4 de setembro de 2016
REPÓRTER – O senhor vai votar na presidente Dilma?
COLLOR – Vou votar na Dilma.
REPÓRTER – Não é daqueles que engrossam o coro do “Volta, Lula”?
COLLOR – Não! Eu sou dos que engrossam o de “Fica, Dilma” (risos).
Aparentemente, ele mudou de ideia ao longo dos anos. Em 2016, disse sim ao impeachment, lembrando em seu voto o impeachment que ele mesmo sofreu, em 1992. Disse que “o rito é o mesmo, mas o ritmo e o vigor, não”, indicando que seu processo foi muito mais rápido do que o que levou ao afastamento de Rousseff.
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| Luciana Genro revisou sua posição sobre o impeachment ser ou não ser um golpe. Foto: Yasuyhoshi Chiba/AFP/Getty Images |
“Eu, que não votei em Temer nem para vice-presidente, é claro que não o aceito como presidente. Ainda mais quando sua presidência definitiva é produto de um golpe palaciano desferido no seu antigo aliado, o PT, que com ele compartilhou o poder por anos.”
E como esquecer a ainda candidata Dilma Rousseff exaltando seu então candidato a vice-presidente, Michel Temer, dizendo que ele saberia “honrar e me substituir à altura”? O que, depois, lamentou profundamente.
MACHADO – Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].
JUCÁ – Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha’. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.
MACHADO – É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.
JUCÁ – Com o Supremo, com tudo.
MACHADO – Com tudo, aí parava tudo.
JUCÁ – É. Delimitava onde está, pronto.
Quem quiser lembrar da gravação completa, aqui vai.
Assim se monta a realidade em que o governo fala que não vai mexer nos programas sociais, mas pede um corte médio de 30% nos mesmos; ou que fala em corte de gastos, mas adota medidas que não trazem corte efetivo de despesas.
Enquanto isso, o povo volta às ruas. Porque, por mais que se diga que tem ele memória curta, ele se lembra. Por: The Intercept / Helena Borges é jornalista, trabalhou nas redações das revistas nacionais Veja e IstoÉ, sempre nas redações de sucursais no Rio de Janeiro. Seu foco de trabalho é em direitos humanos, políticas públicas e cobertura nacional























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